quinta-feira, 3 de junho de 2010

Soneto XV

DE HÁ muito tempo a terra te conhece:
és compacta como o pão ou a madeira,
és corpo, cacho de segura substância,
tens peso de acácia, de legume dourado.

Sei que existes não só porque teus olhos voam
e dão luz às coisas como janela aberta,
mas porque de barro te fizeram e cozeram
no Chile, num forno de adobe estupefato.

Os seres se derramam como ar ou água ou frio e
vagos são, se apagam ao contato do tempo,
como se antes de mortos fossem fragmentados.

Tu cairás comigo como pedra na tumba
e assim por nosso amor que não foi consumido
continuará vivendo conosco a terra.
(Pablo Neruda)

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